quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Repaginação: nunca fui normal

Quando eu era criança, as fitas que eu mais ouvia eram Pink Floyd e Xuxa. Depois vinha Michael Jackson e Sandy & Junior. Meu passado me condena, fazer o que?

Na época de definir o gosto musical mesmo, aquela parte indefinida da vida, que pode ir dos 0 aos 18 anos – e no meu caso foi ali pelos 11 ou 12 -, eu pendi loucamente para o progressivo. Aquele mais mainstream mesmo, o Jethro Tull, o Rush, o Yes, o Genesis, etc. Depois foi o metal melódico, metal progressivo. Aquela coisa bem punheteiro cabeludo de 15 anos. Nerd. Quer dizer. Que tipo de pessoa aprecia progressivo e metal, né? Aí veio Pantera, que foi tipo um meteoro da paixão na minha vida, e veio de um jeito meio sem querer, com Vulgar Display of Power, para dar um stop nas cinco horas diárias de lamentação ouvindo Dream Theater. E aos 16 veio Alice Cooper, David Bowie, Deep Purple, The Doors, e uma infinidade de coisas. Até os 15 eu nunca tinha ouvido Kiss,  nem Beatles. Mas já tinha ouvido Bach, bastante. Deve ser por isso que meu #1 sempre foi o progressivo, embora eu tenha tido a fase Hibria, Angra, e derivados, ali por volta dos 17.

Mas… who cares, bitch?

O fato é que, sempre ali à margem, tinha Ramones, Nirvana, Sex Pistols, The Clash, Pixies. Blablablá. Gente que, para mim, fazia música tosca. Não via nada de legal em ouvir Nevermind e não entendia que diabos era o grunge, e nem porque faziam tanto alarde sobre isso. Mesma coisa sobre punks. Para mim não passavam de um bando de gente fedida, esquisita, que não sabia fazer uma música decente. Nunca prestei atenção nas letras, nunca pesquisei sobre o movimento. Nada.  Hardcore, punk, emo, grunge, rock de garagem, era tudo bullshit.

(A despeito disso, amava AC/DC, não pergunte).

Sempre fui muito certinha. Demorava muito para expressar opinião sobre algo, pesquisava muito antes de falar sobre qualquer assunto. Era CDF. Tinha uma dificuldade imensa de me comunicar de qualquer jeito além da escrita. O maior exemplo disso é o fato de que eu só fui falar com o pessoal do meu colégio três anos depois de ter me formado (aquelas pessoas fora do meu círculo de amigos). Eu era gordinha. Usava óculos, tinha espinhas. Vestia roupas ridículas. Nunca me sentia bem em lugar nenhum. Fazia kick boxing e sofria um bullying intenso por estar sempre acima do peso e fugir um pouco do 'padrão'. Gostava de computadores e sabia usar o windows 98 contra as pessoas das quais eu arrancava o endereço de ip. Eu tinha uma rã de estimação. Eu gostava de rpg.

Ou seja, se eu fosse menino, eu teria cara de metaleiro punheteiro de 15 anos.

Com o passar dos anos, as experiências, as responsabilidades, eu fui mudando. Eu não lia mais só livros de aventuras medievais, eu comecei a ler blogs, livros sobre filosofia, artigos, etc. Com o passar do tempo descobri que demorar para me sentir bem nos lugares me prejudicava, e que ser tímida só dificultava as coisas. Me vestir mal só tornava tudo pior.

Aí entendi que as pessoas seriam legais comigo, se eu também fosse legal com elas. Fui ficando mais descolada. Parei de usar as roupas que a minha mãe me dava, fui comprar as minhas próprias, etc etc. O pensamento também foi acompanhando a mudança externa. Fiquei mais libertária, mais libertina.

E eu sinto que cada dia eu sou mais e mais mente aberta. Gosto de conversar. Me adapto mega rápido à lugares diferentes. É fácil me fazer sorrir.

Com essa transformação, de uns quatro anos para cá, veio o Nirvana, o The Clash. Se eu tinha aberto a cabeça para tantas coisas, porque não para o rock? Ouvi, prestei atenção no que aqueles caras diziam… E amei.

O som seco, alto, e simples, já não era mais motivo de desprezo. Era admiração. Porque eu me sentia assim. Livre para ser quem eu queria, falar o que eu quisesse. Eu parei de me preocupar com o que os outros pensavam de mim, passei a me preocupar com as coisas que eu achava que eu deveria lutar por. Se eu tivesse que chutar a mesa para chamar atenção para algo que eu julgasse injusto: eu chutaria. Sem pensar duas vezes.

Nessa época veio o feminismo, as tatuagens, a descoberta da liberdade sexual, e – o mais importante – notar que as pessoas gostavam de mim assim, autêntica.

Isso é muito grunge,  punk, e bem hardcore. Conhecer a si, a sociedade, saber o que se quer, e não dar bola para se você se ajusta numa bolha ou não… Isso coincidiu para mim com a descoberta do estilo musical, de toda uma gama nova de bandas para ouvir. Foi muito massa.

Jamais consegui tirar aquela adolescente socialmente inapta de dentro de mim, assim como sempre vou gostar de rock e metal progressivo, requintado, esmirilhado. Mas isso não vai me impedir de ouvir rock de garagem, cru, com jeito de teenager, cheio de palavras politizadas. Descobrir que eu posso apreciar músicas que falam de Tolkien  tanto quanto as que falam de repressão midiática, é fantástico.

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