sábado, 7 de julho de 2012
Canibal
Pensei em te ligar. Peguei o telefone tantas vezes, mas me faltou coragem. Coragem, acredita? Logo eu! Quando olhei o relógio, já havia passado mais do que minutos, horas. Estou começando a ficar preocupada com a minha sanidade. Sabe por que quis discar o seu número? Só pra ouvir tua voz. Na verdade, não. Tua respiração! Queria apenas te sentir perto, é isso. Queria me iludir mais um pouco, só um pouquinho mais. Essa sensação esquisita de falta. Falta um pedaço, falta um inteiro. Só tem vazio. Na sala, no corredor, no quarto. Só tem vazio. Nos meus olhos, nos meus lábios, nos meus gestos. Só tem silêncio. Eu não sei, não quero saber o que é isso. Não quero pensar, não agora. Não, por favor. Pensar só me destrói. Pensar não me faz mais otimista e feliz com as pessoas. Pensar é quase como uma maldição. Quero que a minha racionalidade suma. Quero ser burra. Quero ser só sentimento. Quero a tua leveza só minha, por mais que eu não saiba, eu quero. Por mais que não valha a pena, eu tento. Eu quero tentar. Me deixa tentar? Tudo deve ser tão novo, é estranho me ler assim, não é? Tenho certeza que não desconfias de nada. Enfim, consegui me controlar. Por fora, é claro. Por que por dentro... Ah, se soubesses o que acontece aqui dentro! Os pensamento que vêm, as vontades que me surgem, as raivas, as tristezas. Aprendi a não vomitar mais nada na cara de ninguém. Quem gosta de pessoas assim, insuportavelmente verdadeiras? O certo é viver tudo internamente. Que o exterior seja pintado com todas as cores do arco-íris. Por mais que sejam falsas e inúteis. É assim que se vive, é assim que se vive hoje em dia. Eu só queria poder dizer, poder gritar aos quatro ventos o que venho guardando, o que está entalado aqui ó, na minha garganta. Por que está fazendo mal, eu fico doente! Loucura é doença, sabia? Quando a linha do tolerável romper não vai ter mais volta. Aí só vivendo desses remédios psiquiátricos famosos que nos põem de volta à tão querida normalidade. Tão falsamente risonha. Tão assassinavel. Quer saber? Pouco me importa! Tudo isso pra falar de amor? Até eu me sinto a mais ridícula das mulheres... Mas é verdade, tudo isso pra falar da porra do amor. Por que? Porque eu te amo. Assim, simples: eu te amo. E tenho te amado calada por todo esse tempo, tenho me auto-flagelado, me degustando no maior estilo canibalista de ser. Pronto, falei.
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Às vezes damos demasiada importância à vida de outras pessoas que as julgamos terem destinos separados dos nossos, como se não fossemos nos encontrar no ponto único onde todos os destinos convergem. "O desaparecimento de tão bela alma, e tão exemplar, não valerá mais do que o da mais inútil? Esta vida que tantas outras sustenta, pela qual tantos se interessam, com tantas funções e cargos, deverá ser deitada fora como qualquer outra insignificante?"
ResponderExcluirNão consegui ler seu texto sem deixar de lembrar daquela vez que eu lhe disse que o Chico foi lá na faculdade, e que eu não peguei nenhum autógrafo dele, nem tirei foto, nem cumprimentei, nem passei a mão, nem fiquei cheirando o assento onde ele se sentou para assistir à defesa de tese da filha dele. Mas desconfio que alguém chegou a fazer essas mesmas coisas.
Ele parecia ser um cara tão comum, não vi nenhuma borboleta flutuando em volta dele.
Mas não me odeie por isso, cherry. Pelo amor de Deus. Não! Pelo amor de Chico Buarque!